março 07, 2012

Coisas preciosas!

Há uns meses tive de passar alguns dias em Angra do Heroísmo.
Uma das caminhadas matinais diárias foi feita, entre as 6H30 e as 7H30, na zona histórica da cidade.
A cidade estava acordando. Fresca, calma e pura!
A essa hora do dia e nessas condições é sempre possível atendermos a pormenores que nos passam despercebidos no meio dos incontáveis apelos que recebemos no reboliço dos dias, que parecem cada vez mais curtos.
É nessas alturas que percebemos que a vida, a vida que vale a pena, é feita de coisas simples!
Angra cheirava a tosta com manteiga!
Que simplicidade! Que maravilha!
Enquanto andava resistia. O regime alimentar não permite descuidos fora do fim-de-semana.
Mas enquanto andava também me vinham à cabeça recordações de coisas simples que dão vida, pelo seu perfume, pela sua música ou pela sua cor, às cidades que habitamos e aos locais que frequentamos.
Há anos na cidade da Horta as fábricas de lacticínios, que lhe ficavam distantes, tinham uns postos de venda, conhecidos por depósitos. Era lá que a generalidade das pessoas comprava o leite do dia, queijo, manteiga e natas. Desses depósitos saia um intenso cheiro a queijo, que me obrigava a circular na zona pelo lado contrário da rua.
Ainda hoje, mas em Ponta Delgada, existe uma loja de venda de queijo, junto ao Mercado da Graça, que, em certos dias, exala igual perfume.
Até mais recentemente sobreviveu, igualmente na cidade da Horta, a mercearia do Sr. Porto, que vendia, entre muitas coisas, café moído no momento. Passava-lhe à porta com frequência e parava só para apreciar o perfume do café, sempre intenso, e a batida apressada dos moinhos que desfaziam os duros grãos em pó.
Nessa mercearia, como em muitas outras, era apreciável a destreza com que se faziam os embrulhos de papel que embalavam o café e outros géneros, que naquela época eram vendidos avulso.
O desenvolvimento tecnológico trouxe-nos muita coisa boa. Tantas, que eu não trocava a vida de hoje pela de ontem.
Temos, contudo, saudades de coisas que vão sobrevivendo, mas apenas na memória dos mais velhos.
A tecnologia levou dos cafés, pelo menos da esmagadora maioria deles, a forma de aquecer os galões. Há uns anos um galão era feito no momento do pedido, misturando-se o leite, à temperatura ambiente, com o café acabado de fazer. O seu aquecimento era feito com vapor produzido pela máquina de café, processo que originava uma “música” que hoje já quase não se ouve nos cafés.
São estes perfumes, estas músicas, as cores da nossa terra e as pessoas que somos, que desenham o ambiente irresistível, em que representamos a nossa vida.
Uma vida feita de coisas simples e genuína, por isso preciosa.

fevereiro 22, 2012

Ovos verdes

Lembro-me de comê-los desde miúdo, mas conhecia-os por ovos recheados.
Os ovos verdes, prato simples de preparo fácil, estão inscritos na chamada cozinha tradicional portuguesa, sendo, como tal, referidos nas obras de Alfredo Saramago, no livro Lisboa e seu Termo, e na conhecidíssima obra de Maria de Lurdes Modesto intitulada, precisamente, de Cozinha Tradicional Portuguesa.
Já os comi acolitados das mais diversas formas, mas a companhia que mais lhes aprecio é arroz de grelos ou branco enxuto com sabor a manteiga.
Luis Baena, um dos mais destacados Chefs do Portugal contemporâneo propõe-nos ovos verdes com arroz de coentros: http://lifestyle.publico.pt/Videos/Video/b3bc39b9-24bf-46e2-8503-4f65f19b2374/1

fevereiro 08, 2012

Sofisticado


Há uns meses atrás li “Setting the table”, um livro recomendável para qualquer gourmet e obrigatório para quem é ou quer ser restaurateur.
Uma das coisas que melhor recordo do livro é a passagem onde Danny Meyer, o seu autor e proprietário do Union Square Hospitality Group, conta a história do “The Modern”, o restaurante do Museum of Modern Art em New York – MoMA.
Em Lisboa, na Rua de São Nicolau, abriu recentemente um restaurante de nome Moma.
Pessoa amiga, conhecedora da minha veia gourmet, desafiou-me para um almoço lá.
Aceitei, com gosto, e fiz, logo aí, um desenho do que iria encontrar. Ficou bom, mas verifiquei, no momento da chegada, que não era um retrato.
Gostei do espaço, apesar de pequeno e não corresponder ao que imaginara, da mobília, da cutelaria, da louça e sublinho o facto de guardanapos e toalhas serem de pano e estarem impecavelmente limpos e passados. Muito bem!
Em geral o restaurante tem um ar imaculado, que nos descontrai e deixa a nossa atenção livre para se concentrar no que interessa.
A carta foi uma surpresa!
Comida simples, daquela que nos habituamos a comer em casa, a preços muito acessíveis.
Provei uma salada de rúcula com bacon e queijo parmesão, temperada com azeite e sal. Verdura fresca, viçosa, azeite e sal nas mediadas adequadas e queijo de boa qualidade. O bacon deveria ser em pedaços mais pequenos e crocantes.
Os ovos verdes, metades longitudinais de clara cozida recheadas com a gema, salsa, que lhes dá a nota verde, manteiga, para ajudar a ligar e um golpe de vinagre, que lhes dá, na boca, um toque de frescura. Eram panados e fritos em azeite. Estavam uma delícia!
A pequena salada que acompanhava os ovos estava discreta, para não lhes apagar o brilho. No prato vieram, também, uma dúzia de generosos cubos de batata cozida com vestígios de maionese, o que favoreceu a leveza do conjunto e não matou nenhuma das individualidades sápidas.
A sobremesa, um leite-creme, foi uma decepção!
Estava abaixo da temperatura ambiente e apresentou-se com uma camada de açúcar, que não foi queimado na altura, muito espessa e, por isso, dura.
Serviço calmo e atencioso.
Sublinho a simplicidade de tudo: do espaço e da sua brancura, do que lá se come, de quem lá trabalha, da forma que o faz e como se apresenta.
Termino lembrando Leonardo da Vinci: “A simplicidade é a derradeira sofisticação”.

janeiro 25, 2012

A melhor!

Já havia estado à porta. Foi em Junho de 2010. Estavam de férias.
Respondi a um apelo que dirigi a mim próprio quando, há anos, julgo que na revista Única, vi uma referência ao Bufete Fase
Voltei lá recentemente. Estava aberto!
Na montra apresentava-se um diploma onde se lia “a melhor Francesinha do Porto”. Entrei. Eram 5 mesas e 15 cadeiras.
Pedi uma Francesinha, que era o que me levara ao Bufete Fase, e uma coca-cola zero. Para me entreter, até chegar a pequena gaulesa, pedi um rissol. Entre o de carne e o de camarão escolhi o primeiro.
Era grande, como são os rissóis no Porto, de massa fina, recheio abundante e gostoso. Fritura sem óleo em excesso.
Ela, a Francesinha, chegou alta com aspecto fofo.
O tom amarelado do queijo permitia antevê-lo gorduroso, macio, cremoso e dotado de suave sabor, como todos os flamengos. Correspondeu!
O pão apresentou-se fresco, massudo, mas não pesado nem empapado.
Em cima da sanduiche e entre as fatias de pão que a faziam, havia linguiça, que apresentava uma textura seca e um sabor ácido, fundamental para contrastar com o queijo.
Dentro da sanduiche, além de queijo havia fiambre, de boa qualidade, que, mesmo assim e do meu ponto de vista, nada acrescentou, do prisma gustativo, a esta Francesinha.
Ensanduichado estava, também, um bife, que se constituiu como a maior surpresa desta Francesinha. Era tenro. Foi previamente grelhado, mas deixado no ponto e, qual cereja no topo do bolo, sabia a carne. Perfeito!
No molho, onde não havia sinais de amargura, geralmente deixado pela cerveja, o tomate marcou a sua presença sem deixar dúvidas. Digno de registo estava o picante, muito suave, que visitava a boca no final.
Destaco o equilíbrio desta Francesinha. Todos os sabores estavam presentes, sem que algum se sobrepusesse. Todos mantinham a sua individualidade, mas davam o seu contributo para um conjunto de grande valia.
No fim uma sugestão: Se não for possível utilizar batata fresca, ao menos que a fritura do tubérculo pré frito que é apresentado seja mais bem feita, para evitar que o excelente trabalho na Francesinha fique manchado pelas batatas que, podendo não ser comidas, são apresentadas.
Recomendo vivamente.

agosto 17, 2011

Não é o que parece!

Após várias tentativas falhadas visitei, finalmente, o restaurante Spazio Buondi, junto à Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa.  
Um belo espaço onde se nota a existência de uma voz de comendo, discreta, mas eficaz, e que é ocupado por uma brigada de gente diligente, competente e bem arranjada. Pessoas com ar feliz. Vê-se que gostam do que fazem e, sobretudo por isso, fazem-no bem!
Já se percebeu que o serviço é bom. É atencioso e simpático. Ninguém corre, mas também não há quem se arraste. Tudo decorre no ritmo certo.
Comecei por uma “vichyssoise”. O dia estava quente e a sopa, por ser fria, ajudou a arrefecer o corpo, preparando-o para uma melhor degustação.
Escolhi uns “crepes de bacalhau” que mais não eram do que uma espécie de rissóis. Uma feliz originalidade que se apresentou na fritura certa e sem excessos do óleo usado na técnica de preparo. Eram uns finíssimos crepes enrolados em tubo à volta de um generoso recheio, bem apaladado, cremoso, mas na consistência correcta, e com abundante presença do amigo fiel.
O feijão-frade que acompanhava estava no ponto e encimado por salsa picada, cebola e uns cubos de tomate.
A combinação resultou perfeita no paladar, mas pouco fresca na boca e pesada no estômago.
Nos dias quentes de verão, como foi o da visita, uma salada de vegetais crus temperada com a vinagreta que abrilhantou o feijão, teria dado um toque de frescura que valorizaria o prato.
O Spazio Buondi é gerido pelos Nobre, cujas credenciais são firmadas por anteriores encarnações no mesmo ramo.
O nome Spazio Buondi nada diz sobre o que poderemos encontrar do lado de dentro da porta, mas não hesitem. Entrem, que vale a pena!

março 08, 2011

O que eu andei para aqui chegar!

Eram 13H32. Estavam 37 graus.
Que calor!
Acabara de dar uma volta enorme e de perceber que o que procurava estava mesmo no local de onde partira!
A porta estava aberta, mas alguns indícios criavam dúvida. Parecia fechado!
Entrei num corredor exterior. Havia um postigo com o menu que estava cheio de insectos, sobre a direita uma sala nua e vazia. Mais à frente um balcão inox com ar de abandono. Estaria fechado definitivamente?
À minha esquerda estava uma porta de vidro. Olhei. A sala estava pronta e as mesas postas. Enchi-me de esperança.
Não se viam clientes nem empregados. Dúvidas de novo. Saí.
Cheguei à rua pensando que programara a visita ao Sessenta Setenta há longos meses. Desistir agora seria morrer na praia!
Voltei a entrar.
Já se avistava um empregado. Perguntei-lhe: Estão abertos?
- Abrimos às 13.
- De amanhã?! Retorqui-lhe.
Ele olhou o relógio e respondeu-me: Já estamos abertos. Baralhei-me com as horas.
Sentei-me junto a uma janela com uma nesga de vista sobre o Douro. A sala e o mobiliário eram simples, para que nos concentremos apenas no que nos chega nos pratos, mas com óbvios e bem sensíveis sinais de desgaste.
Comecei por um “foie gras com molho de uvas”. Uma combinação feliz que, ao contrário das minhas expectativas, não resulta enjoativa. Gostei!
“Rodovalho com funcho” foi o prato que escolhi. O peixe apresentou-se alvo, nem mais nem menos cozinhado do que devia e sabia a peixe. A fazer-lhe companhia estavam o funcho e uns espargos verdes. De surpresa, apresentaram-se umas migas de tomate, que a meu gosto, valorizaram o conjunto.
No fim, para sobremesa, “pêra glacê”. Fresca e com boa combinação de sabores.
Segui, felizmente, o conselho que me foi dado quanto ao vinho. Bebi “Olho no Pé” branco, que mostrou ser uma companhia de grande nível para tudo o que comi, incluindo a sobremesa.
A experiência valeu apenas pela comida. O serviço foi fraco e o restaurante apresentava em muitos pormenores, uns pequenos e alguns grandes, um ar de desleixo.

outubro 26, 2010

Seja prudente

Durante muitos anos o consumo de vinho, ao menos em Portugal, esteve desprestigiado.
Talvez porque a produção estivesse em baixa, se olhada pelo lado da qualidade.
A qualidade não estimulava o consumo e a inexistência deste não incentivava o investimento.
Há poucos anos o ciclo foi quebrado. Hoje o consumo de vinho é socialmente valorizado e existe, por isso, um quadro de referências que orientam o consumo do vinho: boa comida, copos adequados, convívio, amigos e moderação.
Há meses, para leitura de aeroporto, comprei uma revista sobre cervejas e percebi que o mesmo é válido para a cerveja.
É claro!!
O cerimonial da degustação é o mesmo: a cerveja tem uma cor, tem aromas, tem sabores e desperta sensações.
O copo onde é bebida condiciona o que dela se retira.
Diferentes cervejas harmonizam diferentemente com a comida que as acompanha.
Já não é anormal ouvirmos falar de vinho de sobremesa, mas quem já ouviu referências a uma cerveja para esse fim?
Tudo isto são coisas óbvias!
Quantos de nós já pensaram nelas?
Quantos de nós já as experimentaram?
Aqui fica o desafio: Tratemos da cerveja como já tratamos o vinho!
Bebamos com moderação!