janeiro 25, 2012

A melhor!

Já havia estado à porta. Foi em Junho de 2010. Estavam de férias.
Respondi a um apelo que dirigi a mim próprio quando, há anos, julgo que na revista Única, vi uma referência ao Bufete Fase
Voltei lá recentemente. Estava aberto!
Na montra apresentava-se um diploma onde se lia “a melhor Francesinha do Porto”. Entrei. Eram 5 mesas e 15 cadeiras.
Pedi uma Francesinha, que era o que me levara ao Bufete Fase, e uma coca-cola zero. Para me entreter, até chegar a pequena gaulesa, pedi um rissol. Entre o de carne e o de camarão escolhi o primeiro.
Era grande, como são os rissóis no Porto, de massa fina, recheio abundante e gostoso. Fritura sem óleo em excesso.
Ela, a Francesinha, chegou alta com aspecto fofo.
O tom amarelado do queijo permitia antevê-lo gorduroso, macio, cremoso e dotado de suave sabor, como todos os flamengos. Correspondeu!
O pão apresentou-se fresco, massudo, mas não pesado nem empapado.
Em cima da sanduiche e entre as fatias de pão que a faziam, havia linguiça, que apresentava uma textura seca e um sabor ácido, fundamental para contrastar com o queijo.
Dentro da sanduiche, além de queijo havia fiambre, de boa qualidade, que, mesmo assim e do meu ponto de vista, nada acrescentou, do prisma gustativo, a esta Francesinha.
Ensanduichado estava, também, um bife, que se constituiu como a maior surpresa desta Francesinha. Era tenro. Foi previamente grelhado, mas deixado no ponto e, qual cereja no topo do bolo, sabia a carne. Perfeito!
No molho, onde não havia sinais de amargura, geralmente deixado pela cerveja, o tomate marcou a sua presença sem deixar dúvidas. Digno de registo estava o picante, muito suave, que visitava a boca no final.
Destaco o equilíbrio desta Francesinha. Todos os sabores estavam presentes, sem que algum se sobrepusesse. Todos mantinham a sua individualidade, mas davam o seu contributo para um conjunto de grande valia.
No fim uma sugestão: Se não for possível utilizar batata fresca, ao menos que a fritura do tubérculo pré frito que é apresentado seja mais bem feita, para evitar que o excelente trabalho na Francesinha fique manchado pelas batatas que, podendo não ser comidas, são apresentadas.
Recomendo vivamente.

agosto 17, 2011

Não é o que parece!

Após várias tentativas falhadas visitei, finalmente, o restaurante Spazio Buondi, junto à Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa.  
Um belo espaço onde se nota a existência de uma voz de comendo, discreta, mas eficaz, e que é ocupado por uma brigada de gente diligente, competente e bem arranjada. Pessoas com ar feliz. Vê-se que gostam do que fazem e, sobretudo por isso, fazem-no bem!
Já se percebeu que o serviço é bom. É atencioso e simpático. Ninguém corre, mas também não há quem se arraste. Tudo decorre no ritmo certo.
Comecei por uma “vichyssoise”. O dia estava quente e a sopa, por ser fria, ajudou a arrefecer o corpo, preparando-o para uma melhor degustação.
Escolhi uns “crepes de bacalhau” que mais não eram do que uma espécie de rissóis. Uma feliz originalidade que se apresentou na fritura certa e sem excessos do óleo usado na técnica de preparo. Eram uns finíssimos crepes enrolados em tubo à volta de um generoso recheio, bem apaladado, cremoso, mas na consistência correcta, e com abundante presença do amigo fiel.
O feijão-frade que acompanhava estava no ponto e encimado por salsa picada, cebola e uns cubos de tomate.
A combinação resultou perfeita no paladar, mas pouco fresca na boca e pesada no estômago.
Nos dias quentes de verão, como foi o da visita, uma salada de vegetais crus temperada com a vinagreta que abrilhantou o feijão, teria dado um toque de frescura que valorizaria o prato.
O Spazio Buondi é gerido pelos Nobre, cujas credenciais são firmadas por anteriores encarnações no mesmo ramo.
O nome Spazio Buondi nada diz sobre o que poderemos encontrar do lado de dentro da porta, mas não hesitem. Entrem, que vale a pena!

março 08, 2011

O que eu andei para aqui chegar!

Eram 13H32. Estavam 37 graus.
Que calor!
Acabara de dar uma volta enorme e de perceber que o que procurava estava mesmo no local de onde partira!
A porta estava aberta, mas alguns indícios criavam dúvida. Parecia fechado!
Entrei num corredor exterior. Havia um postigo com o menu que estava cheio de insectos, sobre a direita uma sala nua e vazia. Mais à frente um balcão inox com ar de abandono. Estaria fechado definitivamente?
À minha esquerda estava uma porta de vidro. Olhei. A sala estava pronta e as mesas postas. Enchi-me de esperança.
Não se viam clientes nem empregados. Dúvidas de novo. Saí.
Cheguei à rua pensando que programara a visita ao Sessenta Setenta há longos meses. Desistir agora seria morrer na praia!
Voltei a entrar.
Já se avistava um empregado. Perguntei-lhe: Estão abertos?
- Abrimos às 13.
- De amanhã?! Retorqui-lhe.
Ele olhou o relógio e respondeu-me: Já estamos abertos. Baralhei-me com as horas.
Sentei-me junto a uma janela com uma nesga de vista sobre o Douro. A sala e o mobiliário eram simples, para que nos concentremos apenas no que nos chega nos pratos, mas com óbvios e bem sensíveis sinais de desgaste.
Comecei por um “foie gras com molho de uvas”. Uma combinação feliz que, ao contrário das minhas expectativas, não resulta enjoativa. Gostei!
“Rodovalho com funcho” foi o prato que escolhi. O peixe apresentou-se alvo, nem mais nem menos cozinhado do que devia e sabia a peixe. A fazer-lhe companhia estavam o funcho e uns espargos verdes. De surpresa, apresentaram-se umas migas de tomate, que a meu gosto, valorizaram o conjunto.
No fim, para sobremesa, “pêra glacê”. Fresca e com boa combinação de sabores.
Segui, felizmente, o conselho que me foi dado quanto ao vinho. Bebi “Olho no Pé” branco, que mostrou ser uma companhia de grande nível para tudo o que comi, incluindo a sobremesa.
A experiência valeu apenas pela comida. O serviço foi fraco e o restaurante apresentava em muitos pormenores, uns pequenos e alguns grandes, um ar de desleixo.

outubro 26, 2010

Seja prudente

Durante muitos anos o consumo de vinho, ao menos em Portugal, esteve desprestigiado.
Talvez porque a produção estivesse em baixa, se olhada pelo lado da qualidade.
A qualidade não estimulava o consumo e a inexistência deste não incentivava o investimento.
Há poucos anos o ciclo foi quebrado. Hoje o consumo de vinho é socialmente valorizado e existe, por isso, um quadro de referências que orientam o consumo do vinho: boa comida, copos adequados, convívio, amigos e moderação.
Há meses, para leitura de aeroporto, comprei uma revista sobre cervejas e percebi que o mesmo é válido para a cerveja.
É claro!!
O cerimonial da degustação é o mesmo: a cerveja tem uma cor, tem aromas, tem sabores e desperta sensações.
O copo onde é bebida condiciona o que dela se retira.
Diferentes cervejas harmonizam diferentemente com a comida que as acompanha.
Já não é anormal ouvirmos falar de vinho de sobremesa, mas quem já ouviu referências a uma cerveja para esse fim?
Tudo isto são coisas óbvias!
Quantos de nós já pensaram nelas?
Quantos de nós já as experimentaram?
Aqui fica o desafio: Tratemos da cerveja como já tratamos o vinho!
Bebamos com moderação!

agosto 22, 2010

Pormenores

Vi, há tempos, numa revista uma referência a um estudo norte-americano para cuja realização foi feito um inquérito em resposta ao qual 88% dos inquiridos afirmava que as casas de banho dos restaurantes eram muito importantes e 29% dos questionados respondeu que não voltaria a um restaurante cujas instalações sanitárias o tivessem desagradado.
Tenho um conceito largo de experiência gastronómica, o que aplicado a um restaurante significa que dele espero muito mais do que boa comida. Num restaurante todos os pormenores contam para percebermos que valor nos atribui o restaurador enquanto seus clientes.
Há uns meses fui à Terceira e tive a possibilidade de visitar e experimentar o restaurante Mar à Mesa, na Praia da Vitória.
Se todos os pormenores contam, há um que é vital: a comida!
No Mar à Mesa comi bem. Muito bem!
O peixe era fresco e estava grelhado como deve ser. Os legumes cozidos trincavam-se e não estavam aguados. O conjunto estava perfeito aos olhos, no nariz e na boca!
Provei um bife do acém redondo que estava divino! Mal passado, apenas com sal na hora de sentir o calor da brasa. Suculento, com sabor a carne e presença de fumo. Estava tão bom, que o preferi solitário.
Não comi sobremesa, mas recomendo o vinho. Foi um Vallado tinto, que bebi pela primeira vez.
O serviço tem de ser melhorado.
A sala é muito clara, com muita luz natural e bem decorada. É um espaço onde se está muito bem. Um espaço onde apetece ficar!
No final registo para a primeira surpresa que tive neste Mar à Mesa: os lavabos! Tão bem decorados e cuidados como as restantes áreas do restaurante. Destaco o pormenor, único nos Açores em restaurantes fora de unidades hoteleiras, das pequenas tolhas de pano individuais para as mãos, que definem a preocupação que o dono tem em proporcionar-nos uma experiência inesquecível.
Gostos não se discutem e cada um o tem o seu, mas este Mar à Mesa é um bom restaurante. Se mantiver este registo pode afirmar-se como dos melhores dos Açores.

junho 27, 2010

Não é caro!

Jamie Oliver esteve ligado a interessantíssimos projectos destinados a promover mudanças dos hábitos alimentares de algumas comunidades.
Estive a rever uma gravação de um programa de TV sobre o projecto em causa, do qual fazia parte uma conversa entre Jamie e uma jovem senhora cuja filha, ainda criança, comia “pita shoarma” com batatas fritas todos os dias.
No decurso da conversa chegou-se à conclusão de que se gastavam cerca de 80GBP, mais ou menos €97,50, por semana só para alimentar a criança, valor que consideraram exagerado e superior ao que seria possível enquadrar no orçamento da família em causa.
Com €97,50 poderemos comer muito melhor do ponto de vista gastronómico, que já inclui a perspectiva equilibrada da alimentação.
A ideia de que ser gastrónomo é caro tem de ser combatida!
Alimentação simples, usando ingredientes frescos, nas quantidades acertadas, apelando aos sentidos através do perfume, da cor e da textura, custa pouco e é “gourmet”!
É indispensável, em primeiro lugar, que se conheçam bem o valor e importância de cada alimento. Temos de saber, logo a seguir, como devemos combiná-los entre si. Em terceiro lugar é necessário saber-se a melhor técnica para os processar e, finalmente, temos de ter bom gosto, o que inclui a compreensão de que gastronomia não é apenas sabor.
O nariz e os olhos também comem e na boca sente-se mais do que isso!

junho 10, 2010

Simplicidade

Baunilha, pistáchio, “bourbon”, frutos silvestres, laranja e caramelo.
Tenho tido a possibilidade de visitar vários lugares, explorar e experimentar diversas culturas gastronómicas.
Depois de uma época onde se viveu por todo o mundo uma época de grande agitação, com o advento da cozinha molecular e o apogeu da fusão, eis que regressa a simplicidade!
Há dias estive em França, país que alberga uma das mais elaboradas e complexas cozinhas.
Participei num jantar que terminou com um gelado de baunilha, que veio repousando numa fina, mas fofa, alcatifa de pistáchio e “bourbon”, cercada por um suave “coulis” de framboesas, encimado por umas finíssimas tiras de casca de laranja e um estilhaço crocante de caramelo.
Cada uma das peças, degustada individualmente, era a simplicidade materializada! Experimentadas em conjunto eram simplesmente divinais!!